Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo IV | Page 6

Alexandre Herculano
por capitaes avultados. Em muitos casos foi o rico proprietario que conglobou nos seus extensos predios vastos predios nacionaes, e isto n'um mercado onde reinava pela abundancia a deprecia??o do genero, e onde a concorrencia era difficil. Outra parte serviu para converter muitos capitalistas em proprietarios. Assim se annullaram os mais importantes resultados que se deviam ter tirado da reivindica??o parcial dos bens da cor?a para o patrimonio publico, e da extinc??o das corpora??es religiosas.
Foi a ignorancia que produziu o mal? Foi a persuas?o de que a grande propriedade era mais util do que a pequena? N?o o cremos. A verdadeira raz?o era o interesse pessoal dos homens influentes. Tinham-se inventado as indemnisa??es; tinham-se taxado os exilios, as perdas effectivas, os lucros cessantes, as persegui??es que se haviam padecido por causa de opini?es. A religi?o do juramento, a f�� nos principios, a lealdade �� dynastia legitima deixaram de ser uma heran?a de honra para se legar como exemplo a filhos e netos, e converteram-se em capital com juro: os heroes transformaram-se em chatins. Foi uma abdica??o moral quasi completa, a que a historia far�� justi?a. Para as indemnisa??es a aliena??o em grande convinha por mais de um modo. O _Ha-de-haver_ da conta de ganhos e perdas engrossava-se prodigiosamente ao lado do Deve em branco. Os mercadores politicos, que a escripturavam, viam-se no governo, no parlamento, nos conselhos, nos altos cargos administrativos, judiciaes, e militares. Olharam para essa mole appetitosa e immensa que tinham ante si, e talharam a repara??o pelo valor da presa cubi?ada. Quanto mais se accumulassem e portanto se depreciassem no mercado os bens nacionaes, maior por??o d'elles seria necessaria para satisfazer indemnisa??es exaggeradas. Com o tempo desappareceu tudo. O que n?o serviu para se trocar a honra politica por fortuna predial, desbaratou-se por pre?os insignificantes. Os capitalistas vieram substituir-se aos donatarios, aos commendadores e aos frades. Depois os heroes e os capitalistas foram ao templo dar gra?as aos deuses. A republica estava salva.
Ent?o seguiram-se quinze a vinte annos de revolu??es t?o estrondosas como insignificantes. Os partidos disputaram o poder, luctaram, digladiaram-se: houve sangue e desventuras; houve theorias dominantes, vencidas depois, e vencedoras de novo; houve homens turbulentos e cubi?osos (os ambiciosos s?o raros no nosso paiz) que ora se apoderaram do poder, ora desappareceram na obscuridade, quando n?o no exilio: houve todas as convuls?es, todas as peripecias dos tempos de politica pessoal, de politica de odios acerbos e de interesses individuaes feridos. S�� faltaram novos incitamentos para o progresso legitimo. Dentro da ac??o administrativa e parlamentar, o desenvolvimento do paiz, desenvolvimento innegavel, posto que muito inferior ao que devera ter sido, foi apenas a consequencia das providencias da primeira dictadura, e de alguns poucos actos da revolu??o de 1836, em que appareceu um homem de verdadeiro talento e de verdadeiro patriotismo, mas que, perdoe-nos elle, quasi compensou o bem que fez com os males cuja semente lan?ou �� terra, transportando do campo da theoria para o dos factos as id��as proteccionistas. Ainda eram, comtudo, id��as: ainda era um reflexo de 1832. Depois s�� houve politica esteril ou reaccionaria. O progresso, independente das institui??es, das leis e da ac??o administrativa, que se realisou n'este periodo, tem-se devido ��s id��as e aos esfor?os particulares, �� raz?o e �� actividade dos cidad?os, movendo-se n'um ambiente de liberdade intellectual; porque �� preciso confessar que n'esta longa epocha de pequenas paix?es e de turbulencias interminaveis a iniciativa individual e a liberdade dos espiritos, f��ra da esphera politica, tem sido geralmente respeitada.
O cansa?o quebrou por fim a violecia das fac??es e trouxe o periodo do repoiso. Boas ou m��s que fossem as doutrinas dos partidos militantes, ellas eram bandeira, n?o cren?a. A prova ahi est�� na historia dos ultimos quatro annos. Modificaram-se e mollificaram-se as opini?es, porque n?o tinham sido sen?o o estandarte dos interesses particulares, e porque nas phases variadas da longa lucta das parcialidades aquelles interesses chegaram mesmo, por acaso, a uma combina??o politicamente possivel. Mas este facto trouxe outro mais grave: o paiz, que suspeitava de muitos, descreu de todos. �� um mal ou um bem absoluto? O futuro o dir��. O que �� certo �� que desanimou e tornou-se indifferente aos partidos. Entretanto �� incontestavel que vivemos n'uma quadra tranquilla. Que os homens influentes da situa??o o attribuam, n?o �� indifferen?a do paiz, ao seu tedio de conflictos mais ou menos sanguinolentos e devastadores, mas sim �� illustra??o, �� justi?a, �� moralidade e ao liberalismo do poder, e �� sua propria philosophia politica, que se remonta acima da comprehens?o de n��s outros homens vulgares, que importa? �� uma rixa domestica; �� uma quest?o entre os labios e a voz intima do cora??o. Nada temos com isso. O que nos importa �� o facto, e o facto �� que gosamos de paz e de liberdade de discuss?o ��cerca de todas
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