Luiz de Camões marinheiro | Page 8

Vicente de Almeida de Eça
ventos e tormentas desmedidas.
(Lus. V, 43.)
E �� assim. N?o ha paragem alguma do globo onde as tempestades sejam mais frequentes, podendo-se dizer que no Cabo �� estado normal o mau tempo, sendo excep??o a bonan?a. A tempestade
c'um medonho choro?Subito d'ante os olhos se apartou,?Desfez-se a nuvem negra e c'um sonoro?Bramido muito longe o mar soou.
(Lus. V, 60.)
Aqui se observa como um pesado aguaceiro vem abater as ondas encapelladas, ouvindo-se comtudo por muito tempo o surdo rumor que ellas produzem como f��ras, mau grado seu, subjugadas pelo chicote do domador.
Mais desenvolvida �� a descrip??o da tempestade no Indico. N'esse mar �� conhecida a parte que fica entre a cabe?a de Madagascar e as Seychelles pelos frequentes cyclones e golpes de vento que a a?outam e tornam perigosa a navega??o. E, pois, ahi
J�� nos mares da India,
(Lus. VI, 6.)
que o Poeta colloca o temporal, o qual come?a, como �� sabido, por uma pequena nuvem que desponta no horisonte, e dentro em pouco, tocada pelo vento com vertiginosa velocidade, occupa toda a athmosphera. A impetuosidade e o repente do assalto n?o d?o tempo a manobras; muitas vezes �� necessario _picar os mastros_, se o cyclone se n?o encarrega d'isso. O mar cava-se em ondas desencontradas e altissimas, e os relampagos e coriscos vem augmentar o terror. Eis estas scenas successivas da terrivel tragedia pintadas pelo mestre:
O vento cresce?D'aquella nuvem negra que apparece.?D�� a grande e subita procella.?N?o esperam os ventos indignados?Que amainassem (a v��la grande), mas juntos dando n'ella, Em peda?os a fazem.?No romper da v��la a nau pendente?Toma gr?o somma d'agua pelo bordo.?Os balan?os, que os mares temerosos?Deram �� nau, n'um bordo os derribaram (os marinheiros.) Nos altissimos mares, que cresceram,?A pequena grandura d'um batel?Mostra a possante nau.?A nau grande?Quebrado leva o mastro pelo meio,?Quasi toda alagada.?Agora sobre as nuvens os subiam?As ondas,?Agora a ver parece que desciam?As intimas entranhas do profundo.
(Lus. VI, 70 a 76.)
Os ventos que lutavam,?Como touros indomitos bramando;?Mais e mais a tormenta accrescentavam,?Pela miuda enxarcia assoviando;?Relampagos medonhos n?o cessavam,?Feros trov?es.
(Lus. VI, 84.)
Mas n?o s?o apenas os tra?os geraes da descrip??o que reproduzem a exacta verdade. At�� nas mais pequenas minudencias se mostra rigorosa exactid?o. Os ventos s?o
Noto, Austro, Boreas, Aquilo,
(Lus. VI, 76.)
recordando assim a direc??o successivamente differente do vento, percorrendo todos os quadrantes, como se nota nas tempestades de rota??o. Os golphinhos ou toninhas, esses graciosos companheiros do navegador durante a bonan?a, desapparecem d'aquelle theatro de desola??o, e s?o substituidos pelos ma?aricos, as _almas do mestre_, como lhes chama a poetica imagina??o dos marinheiros, que vem augmentar com os seus pios lamentosos a tristeza do espectaculo:
As Halcyoneas aves o triste canto
levantaram,?Os delfins namorados entretanto?L�� nas covas maritimas entraram,?Fugindo �� tempestade e ventos duros,?Que nem no fundo os deixa estar seguros.
(Lus. VI, 77.)
Isto �� perfeito, isto �� enexcedivel. E comtudo ha mais ainda; ha a descrip??o de outro phenomeno do mar, que, posta em prosa, occuparia o logar de honra no melhor tratado de meteorologia. �� a das trombas marinhas. N'este phenomeno em que _as nuvens do mar sorvem as aguas do Oceano_, come?a a levantar-se
No ar um vaporsinho e subtil fumo,?E do vento trazido, rodear-se;?D'aqui levado um cano ao polo summo?Se via, t?o delgado que enxergar-se?Dos olhos facilmente n?o podia;?Da materia das nuvens parecia.?Hia-se pouco a pouco accrescentando?E mais que um largo mastro se engrossava;?Aqui se estreita, aqui se alarga, quando?Os golpes grandes de agua em si chupava;?Estava-se co'as ondas ondeando;?Em cima d'elle uma nuvem se espessava,?Fazendo-se maior, mais carregada,?Co'o cargo grande d'agua em si tomada,?Qual roxa sanguesuga
se enche e a alarga grandemente,?Tal a grande columna, enchendo, augmenta,?A si e a nuvem negra que sustenta.?Mas, depois que de todo se fartou,?O p�� que tem no mar a si recolhe,?E pelo c��u chovendo em fim v?ou;?��s ondas torna as ondas que tomou,?Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe.
(Lus. V, 19 a 22.)
Quem escreveu isto? Foi Bravais? Foi Fitz-Roy? N?o; foi Luiz de Cam?es.
Cam?es tudo v��, de tudo falla. Ao fogo santelmo chama
lume vivo,?Que a maritima gente tem por santa,?Em tempo de tormenta e vento esquivo,?De tempestade escura,
(Lus. V, 18.)
Tambem falla nas correntes maritimas, cujas leis eram pouco conhecidas dos primeiros navegadores, causando-lhes muitos embara?os. Ainda hoje no canal de Mo?ambique se n?o p��de contar com a corrente, ou antes deve-se esperar que ella seja sempre contraria, porque, _como no mar tudo s?o mudan?as_, t?o depressa correm as aguas ao norte como no dia seguinte correm ao sul, e com tal velocidade que vencem muitas vezes a for?a do vento regular. ��, pois, a corrente, como descreve o Poeta
t?o possante?Que passar n?o deixava por diante;?Era maior a for?a em demasia,?Segundo para traz nos obrigava,?Do mar, que contra n��s ali corria,?Que por n��s a do vento que assoprava.
(Lus. V, 66, 67.)
Superior �� meteorologia �� a sciencia astronomica, de todas a mais necessaria ao homem do mar. �� ella que
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