lhe ensina a conhecer onde est��, a que parte do vasto Oceano o levaram os ventos e correntes; �� ella que lhe mostra o caminho a seguir no meio da vasta solid?o. Estava esta sciencia bastante atrasada no tempo do Poeta, pois que reinava ainda o errado systema de Ptolomeu. Mas este systema �� por elle descripto t?o exactamente, que um abalisado professor contemporaneo, ao ter de explical-o nas suas li??es de cosmographia, nunca deixava de citar a descrip??o de Cam?es. Ptolomeu, fazendo da terra centro immovel de todo o universo, collocava a lua, o sol, os planetas e as estrellas em outras tantas espheras concentricas a ella, e que, sobre um eixo que passava pelos seus polos, giravam com velocidades diversas. Todas estas espheras eram envolvidas por uma ultima, o Empyreo, alem do qual estava o Ser Infinito, pois
Quem cerca em derredor este rotundo?Globo e sua superficie t?o limada,?He Deus.
(Lus. X, 80.)
Come?ando, pois, a enumerar as superficies concentricas, cujo conjuncto f��rma o systema, diz Cam?es:
Este orbe, que primeiro vae cercando?Os outros mais pequenos, que em si tem,?Que est�� com luz t?o clara radiando,?Que a vista cega e a mente vil tambem,?Empyreo se nomea.
(Lus. X, 81.)
Segue-se o primeiro mobil:
Debaixo d'este circulo,
que n?o anda,?Outro corre t?o leve e t?o ligeiro?Que n?o se enxerga: he o mobile primeiro.
(Lus. X, 85.)
Vem depois os dois crystalinos e logo o c��u das fixas, entre as quaes o Poeta n?o se esqueceu de nomear as doze constella??es zodiacaes bem como as outras mais notaveis do firmamento:
Est'outro debaixo esmaltado?De corpos lisos anda e radiantes,?Que tambem n'elle tem curso ordenado?E nos seus axes correm scintillantes;
se veste e faz ornado?Co'o largo cinto d'ouro, que estellantes?Animaes doze traz affigurados,?Aposentos de Phebo limitados.
Por outras partes a pintura?as estrellas fulgentes v?o fazendo:?A Carreta, a Cynosura,?Andromeda e seu pae, e o Drago,?Cassiopea, Orionte, o Cysne,?A Lebre, os C?es, a Nau e a Lyra.
(Lus. X, 87, 88.)
Seguem-se por sua ordem os c��us dos sete planetas ent?o conhecidos, contando n'esse numero o Sol:
Debaixo d'este grande firmamento
? c��o de Saturno; Jupiter faz logo o movimento, E Marte abaixo; O claro olho do c��o no quarto assento; E Venus; Mercurio; Com tres rostos debaixo vae Diana.
? (Lus. X, 89.)
Em seguida �� Lua vem finalmente os quatro elementos:
? _fogo_ e o _ar_, o vento e a neve Os quaes jazem mais a dentro, E tem co'o _mar_ a _terra_ por assento.
? (Lus. X, 90.)
Alem d'esta descrip??o, que �� completa, ha por todo o poema allus?es ao firmamento e aos seus brilhantes luzeiros, espectaculo maravilhoso e divino em que se enlevam os olhos do marinheiro durante as longas horas da noite. Citaremos apenas a allus?o ao Cruzeiro do Sul:
L�� no novo hemispherio nova estrella,?N?o vista de outra gente, que ignorante?Alguns tempos esteve incerta d'ella;
(Lus. V, 14.)
�� qual se segue logo a allus?o ��quella parte do firmamento perto do polo sul, onde as estrellas s?o mais raras, e que os astronomos modernos chamam o _Sacco de carv?o_:
a parte menos rutilante,?E por falta d'estrellas menos bella,?Do polo fixo.
(Lus., ibidem.)
Para acabarmos com a astronomia de Cam?es diremos ainda que nem sequer se esqueceu elle de fallar da _nautica_, parte pratica ou applica??o d'aquella sciencia �� navega??o, a qual mais directamente ensina o marinheiro a _ver em que parte est��_ (Lus. V, 26), isto ��, a _p?r o ponto na carta_, pois que nos falla do
novo instrumento do Astrolabio?Inven??o de subtil juizo e sabio;
(Lus. V, 25.)
que servia, como hoje o sextante, para
tomar do Sol a altura.
(Lus. V, 26.)
VI
Est�� j�� can?ada a penna de fazer transcrip??es, �� tempo de p?r termo a este trabalho, e ainda n?o temos percorrido toda a escala de variadissimos tons com que Luiz de Cam?es teceu a sua harmoniosissima composi??o sobre as cousas do mar. Fallaremos ainda, antes de terminar, da Geographia, sciencia que o Poeta possuiu em subido grau, e que, como a astronomia e a meteorologia, �� tambem essencialmente necessaria ao marinheiro.
Os _Lusiadas_ s?o por si s�� um completo tratado da sciencia da terra. N?o ha ponto conhecido no mundo do seculo XVI de que o Poeta n?o falle, assignando a cada um a sua fei??o geographica caracteristica, a sua especialidade ethnographica. Mas as suas descrip??es tem ainda a particularidade de serem essencialmente maritimas. Effectivamente ao marinheiro o que mais importa saber, depois da posi??o dos logares, �� a f��rma com que elles se apresentam vistos do mar, f��rma que o marinheiro precisa de gravar na memoria para poder distinguir uns dos outros montes, cabos, praias ou enseadas ali��s muito similhantes. Para isto serve-se muitas vezes o navegador da compara??o com objectos conhecidos, e foi de certo elle quem inventou os nomes de Sombreiro, Barrete
Tip: The current page has been bookmarked automatically. If you wish to continue reading later, just open the
Dertz Homepage, and click on the 'continue reading' link at the bottom of the page.