Luiz de Camões marinheiro | Page 7

Vicente de Almeida de Eça
para todas as communica??es com a terra dentro dos portos, serve-se a gente do mar dos _bateis_ ou embarca??es miudas. Estas embarca??es s?o quasi sempre movidas por meio de remos, cuja manobra �� diversa e variada conforme a maior ou menor pressa e outras circumstancias. Assim, quando o commandante vae a terra fazer uma visita official, a embarca??o que o transporta vae de _voga larga e descan?ada_, e
O remo _compassado_ fere frio?Agora o mar, depois o fresco rio,
(Lus. VII, 43.)
mas quando, por qualquer motivo, �� preciso chegar rapidamente, n?o se p��de perder tempo com essas elegancias de manobra; _pica-se a voga_ e _aperta-se o remo_ (Lus. V, 32), duplicando a for?a de impulso e fazendo saltar o escaler por cima das ondas.
N?o esqueceram ao Poeta os combates navaes, em que o marinheiro se torna soldado com duplicado valor, pois tem de combater ao mesmo tempo os tormentos e o inimigo. Ora �� um desembarque:
Apercebido vae?Em tres bateis.
(Lus. I, 85.)
Eis nos bateis o fogo se levanta?Na furiosa e dura artilharia;?A gente?A povoa??o?Esbombardea, accende e desbarata.
(Lus. I, 89, 90.)
Ora �� um combate entre as embarca??es miudas dos dois contendores:
Huns v?o nas almadias carregadas;?Hum corta o mar a nado diligente;?Quem se afoga nas ondas encurvadas;?Quem bebe o mar, e o deita juntamente.?Arrombam as miudas bombardadas?Os pangaios subt��s.
(Lus. I, 91)
Ora �� finalmente uma verdadeira batalha naval entre duas armadas, quando
em sangue e resistencia?O mar todo com fogo e ferro ferve.
(Lus. X, 29.)
Primeiro combatem de longe com a artilharia; segue-se depois a abordagem; e o combate decide-se por ultimo �� arma branca. Assim o vencedor
Das grandes naus,
co'a ferrea pella?Que sahe com trov?o do cobre ardente,?Far�� peda?os leme, mastro, vela;?Depois, lan?ando arp��os ousadamente?Na capitaina inimiga, dentro nella?Saltando, a far�� s�� com lan?a e espada?De quatro centos despejada.
(Lus. X, 28.)
V
Mostr��mos at�� aqui como Cam?es conhecia e comprehendia os homens do mar, n?o lhe escapando nem uma das mais pequenas circumstancias, que tornam o seu modo de viver e pensar t?o caracterisco e differente do dos homens da terra. Mostr��mos tambem com que propriedade e conhecimento elle introduziu no seu poema a descrip??o ou antes a viva pintura das manobras e fainas que constituem o officio do marinheiro. Vamos agora tentar mostrar como o Poeta comprehendeu o theatro em que se passam as scenas t?o variadas da vida do homem do mar.
O mar, esse elemento imponente e magestoso, que enche de espanto o homem que, pela primeira vez, o encara, parecendo �� primeira vista t?o uniforme e t?o igual, apresenta mil aspectos diversos, que s?o outras tantas manifesta??es das for?as creadoras que abriga em seu seio. D'essas, a mais grandiosa, aquella que irresistivelmente se imp?e e subjuga a alma mais destemida, �� a tempestade. Nem o volc?o vomitando fogo e lavas; nem a trovoada fusilando raios, atroando com o ribombar do trov?o e inundando com as catadupas de agua; nem o terramoto abalando os edificios e fazendo ondular os montes; nem o kahmsin do deserto enterrando as caravanas com as suas nuvens de areia, nada p��de rivalisar com uma tempestade maritima. Esta reune tudo o que os outros cataclysmos tem de bello e horroroso, e �� ainda mais sublime e medonha. E s?o t?o variados os espectaculos offerecidos pela natureza, que ainda nas tempestades maritimas ha differen?as e especialidades que as distinguem entre si. Assim o temporal dos A?ores n?o se parece com a tempestade do Cabo, como o cyclone do Oceano Indico differe do tuf?o do mar da China. S?o diversas as causas que as originam, diversas as circumstancias meteorologicas com que se manifestam, diversos, se �� possivel, os horrores que inspiram.
E, comtudo, Cam?es apanhou essas differen?as, conheceu essas circumstancias especiaes. Duas s?o as principaes descrip??es de tempestades maritimas que elle nos offerece no seu poema. A primeira �� de um temporal no Cabo da Boa Esperan?a, e constitue o episodio do Adamastor, que n?o transcreveremos por o julgarmos conhecido de todos. A tempestade come?a por uma nuvem _temerosa e carregada_
que os ares escurece;
(Lus. V, 37.)
e effectivamente uma das circumstancias peculiares das tormentas do Cabo �� escurecer-se completamente a athmosphera. �� tambem notavel a altura que attingem as ondas n'essas occasi?es, pois nenhum navegador as viu em parte alguma maiores ou iguaes. Cam?es notou esta circumstancia na elegia III, onde, descrevendo a sua viagem para a India, diz que
chegando ao Cabo da Esperan?a?Eis a noute com nuvens se escurece,?Do ar _subitamente_ foge o dia?E todo o largo Oceano se embravece;?Em _serras_ todo o mar se convertia.
Voltando aos _Lusiadas_ observaremos que todo o horror do Cabo da Boa Esperan?a est�� n'aquella prophecia do Gigante:
Quantas naus esta viagem?Fizerem de atrevidas,?Inimiga ter?o esta paragem?Com
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