Luiz de Camões marinheiro | Page 6

Vicente de Almeida de Eça
com revista da guarni??o a postos de combate, com salvas de artilheria. De noite illumina-se o mar com foguetes e tigellinhas. De tudo isto fallou Cam?es.
Come?a a embandeirar-se toda a armada,?E de toldos alegres se adornou?Por receber com festas e alegria;
(Lus. I, 39.)
Sonorosas trombetas incitavam?Os animos alegres, resoando;
(Lus. II, 100.)
Outros?Instrumentos altinosos tangiam.
(Lus. II, 90.)
Vem arnezes, e peitos reluzentes,?Malhas finas e laminas seguras,?Escudos de pinturas differentes,?Pelouros e espingardas de a?o puras,?Arcos e sagittiferas aljavas,?Partazanas agudas, chu?as bravas;?As bombas vem de fogo e juntamente?As panellas sulphuras t?o damnosas.
(Lus. I, 67, 68.)
N?o faltam ali os raios de artificio?Os tremulos cometas imitando;?Fazem os bombardeiros seu officio,?O c��u, a terra, e as ondas atroando
(Lus. XI, 90.)
��s salvas de bordo _agradecem_ as fortalezas de terra, salvando tambem:
Respondem-lhe de terra juntamente?Co'o raio volteando com zonido;
(Lus. II, 91.)
e o canh?o faz ouvir tanto e t?o repetidas vezes a sua voz atroadora que as festas e cumprimentos entre gente maritima s?o sempre
�� maneira de peleja.
(Lus., ibidem.)
Veja-se agora se n'este assumpto, ali��s secundario, esqueceu ao Poeta alguma circumstancia notavel!
IV
Se dos costumes dos homens do mar passamos aos trabalhos manuaes, que constituem a parte pratica da sua arte, vamos encontrar nos Lusiadas descrip??es e allus?es a quasi todas as fainas e manobras t?o variadas, que s?o necessarias para fazer servir essa complicada machina que se chama _navio_.
�� imponente o espectaculo que offerece a tolda de um navio em faina geral de fazer-se de v��la. Por mais numerosa que seja a guarni??o, todos tem o seu posto detalhado e todos tem que fazer. Descreve Cam?es essa faina da maneira seguinte:
J�� nas naus os bons trabalhadores?Volvem o cabrestante, e repartidos?Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,?Outros quebram co'o peito a dura barra,?Outros pendem da verga e j�� desatam?A v��la.
(Lus. IX, 10, 11.)
Est�� o ferro a _pique_, redobram os esfor?os dos marinheiros para o suspender;
As ancoras tenaces v?o levando,
(Lus. II, 18.)
e ao mesmo tempo
Da proa as v��las _s��s_ ao vento dado,
(Lus., ibidem.)
obrigam o navio a _fazer cabe?a_, e eil-o que vae em demanda da barra.
Nos versos que acabamos de citar est?o compendiadas todas as manobras necessarias para um navio se fazer de v��la. N?o o faria melhor o Bonnefoux ou o Br��art!
Na descrip??o da tempestade do canto VI, encontram-se todas as manobras de que se lan?a m?o debaixo de tempo. O mestre, que presente o golpe de vento, _apita �� gente_ e manda _carregar e ferrar joanetes_,
Os traquetes das gaveas tomar manda,
(Lus. VI, 70)
Mal est?o carregados os joanetes, j�� o vento est�� a contas com o navio. _Carrega a v��la grande!_
?Amaina a grande v��la!?
(Lus. VI, 71.)
N?o se carregou a maior a tempo, por isso ella se rasgou, e o navio, dando a borda de sotavento, metteu dentro uns poucos de _mares_;
No romper da v��la a nau pendente?Toma gr?o somma d'agua pelo bordo.
(Lus. VI, 72.)
�� preciso allivial-o, quanto seja possivel, dos pesos, e esgotar a agua. Por isso o mestre ordena:
?Alija tudo ao mar,?V?o outros dar �� bomba, n?o cessando!?
(Lus., ibidem.)
e n?o se esquece de refor?ar a _gente do governo_, pondo ao leme
Tres marinheiros duros e for?osos,
(Lus. VI, 73.)
passando-lhe ainda para mais seguran?a
Talhas d'uma e d'outra parte.
(Lus., ibidem.)
Chega o navio a um porto pouco conhecido. Ao _investir_ a barra depara-se com uma pedra �� flor d'agua. �� necessario _safar_ d'ella e quanto antes. Aqui �� inevitavel alguma confus?o; n?o se sabe para que lado ser�� melhor _guinar_, e por isso os marinheiros
Maream v��las, ferve a gente irada?O leme a um bordo e a outro atravessando;?O mestre da poppa brada.
(Lus. II, 24.)
Com similhante contratempo �� melhor n?o commetter a barra e _fundear em franquia_; por isso o commandante
N?o entra pela barra, e surge f��ra.
(Lus. I, 102.)
Mas depois de reconhecida a barra j�� se p��de tentar a entrada; ent?o
j�� as proas se inclinavam?Para que amainassem;?A gente e marinheiros?Tomam v��las; amaina-se a verga alta;?Da ancora o mar ferido em cima salta;
(Lus. I, 48.)
e por fim
Pega no fundo a ancora pesada;
(Lus. II, 74.)
e aqui temos n��s uma descrip??o completa da faina de fundear.
Surto o navio no porto, nem por isso cessam as suas manobras e fainas. Uma das mais importantes consiste na limpeza do costado do navio, que depois de uma viagem prolongada se acha coberto de incrusta??es, molluscos e algas marinhas, principalmente nas obras vivas. Quando os navios n?o eram forrados de cobre, como hoje s?o, esta opera??o era indispensavel, posto que difficultosa, sendo muitas vezes necessario _espalmal-os_, isto ��, varal-os na praia, e at�� _viral-os de querena_. N?o se esqueceu o Poeta d'este servi?o maritimo, descrevendo-o assim:
Aqui de limos, cascas e d'ostrinhos,?Nojosa cria??o das aguas fundas,?Alimpamos as naus, que dos caminhos?Longos do mar vem sordidas e immundas.
(Lus. V, 79.)
�� tambem um dos primeiros cuidados nos portos o renovar a aguada, e por isso o commandante, logo que p��de, determina
De vir por agua a terra;
(Lus. I, 84.)
E v?o a seu prazer fazer aguada.
(Lus. I, 93.)
Para este servi?o, bem como
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