um poeta ousava apartar-se das f��rmas imaginadas nos antigos monumentos, e se este poeta merecia a estima??o publica, os criticos se viam na necessidade ou de confessar, se n?o a inutilidade, ao menos a instifficiencia de seus preceitos, ou a votar ao desprezo as produc??es do genero moderno. A op??o n?o era duvidosa; as regras sempre tinham raz?o; mas como ante o tribunal da opini?o era preciso que ellas apresentassem algum titulo, ahi se corria a pedir soccorro ao homem e ao mundo, e sempre l�� se achava com que contentar o povo litterario. Aquelles preceitos que factos oppostos n?o controvertiam ficavam amparados por grandes nomes e pelo respeito dos seculos sem dar raz?o da sua existencia, bem como em nossas cathedraes os conegos �� sombra do culto religioso.
A justi?a pede que digamos que uma grande parte dos preceitos dos antigos foram deduzidos do principio da unidade, d'esse principio que reside em nossa alma e que, emquanto existirmos sobre a terra, representa para n��s o absoluto, ao qual nos faz constantemente tender a consciencia da immortalidade; mas a applica??o d'este principio foi em nosso entender muitas vezes errada ou exaggerada. Metastasio refutou excellentemente a regra da restricta unidade de logar e de tempo nos poemas dramaticos, e n��s veremos brevemente que nem s�� essa unidade carecia de fundamento: por��m, a f��ra das regras nascidas d'este principio, outras ha de tal maneira futeis que para as destruir basta negar-lhes a validade. Que raz?o daria Horacio, tirada da essencia do tirania, para uma tragedia ou comedia n?o ter nem mais nem menos de cinco actos? Julgamos n?o teria outra melhor do que uma dada engra?adamente pelo auctor do Anno de 2440 em nota a um dos seus dramas.[1]
N��s devemos em grande parte aos antigos o que sabemos: seria uma ingratid?o neg��-lo. Elles crearam as letras e as levaram a um ponto de esplendor admiravel; mas por as crear e aperfei?oar n?o se deve concluir que acertaram em tudo ou tudo sabiam. N��s n?o dizemos com Mr. de Chateaubriarid que em litteratura s�� devemos estudar os antigos: Cam?es, Tasso, Klopstok n?o nasceram na Grecia ou em Roma, e entretanto achamos tanto que estudar nos escriptos d'elles como nos de Homero e Virgilio. O mesmo Mr. de Chateaubriand �� uma prova de que o genio n?o �� partilha exclusiva de nenhuma epocha, de nenhum povo. No renascimento das letras a admira??o pelos auctores classicos n?o deixou ver seus defeitos e erros, e julgou-se inviolavel a antiguidade. Venia mereciam os descobridores dos preciosos manuscriptos que continham o thesouro de id��as que nos herdaram os gregos e os romanos: laboriosas indaga??es, largos annos de applica??o davam jus aos Vallas e aos Philelfos, aos Aldos e aos Stephanos, a n?o verem uma s�� macula nos objectos caros que elles revelavam �� Europa: mas que, passados dois seculos, ainda a republica litteraria se conservasse deslumbrada pelo fulgor tios tempos remotos, emquanto as sciencias come?avam a fazer justi?a e a dar o seu a seu dono, �� o que nos parece inexplicavel ou, para melhor dizer, o que com repugnancia explicariamos.
Embora se apresentassem difficuldades insuperaveis, embora fosse preciso recorrer ��s raz?es mais frageis, aos argumentos mais illusorios, uma vez que as regras fossem ou se cressem originaes, ou derivadas dos escriptos de Aristoteles ou de Horacio, de Cicero, de Quintiliano ou de Longino, era obrigatorio defend��-las sob pena de ser havido por ignorante ou por homem de minguado criterio. Boileau disse em uma das suas satiras que s�� a verdade era bella: o padre Castel profundo litterato que escreveu sobre o bello e sublime e que jurava ante os numes defender esta proposi??o (porque em fim era de Despreaux), sem mesmo se aproveitar da vaga distinc??o do verdadeiro e verosimil, que tem salvado muita coisa e muita gente, come?ou a applic��-la por esse mundo poetico; mas embicou logo com Virgilio. O verso _Provehimur portu terraeque urbesque recedunt_ recalcitrava, al��m de outros, contra a senten?a do mestre. Que fez o bom rio padre?--Z��s--Uma raz?o digna de Fr. Gerundio: ?O verso de Virgilio exprime uma id��a verdadeira, porque ha ahi uns annos descobriu-se a theoria do movimento; e voto a Apollo que a regra ha-de passar inconcussa: o verso e bello porque �� verdadeiro?. Se fosse possivel um padre grave ludibriar o publico, n��s diriamos que elle estava escarnecendo os leitores. Desejariamos que o padre Castel nos tivesse explicado porque o verso era achado bello antes d'essa theoria e porque o continuaria a ser mesmo se ella fosse destruida. Taes s?o as miserias que teem resultado do modo porque durante muitos seculos foram tractadas as letras. D'estas ninharias poderiamos dar muitos exemplos; mas voltemos ao nosso objecto.
Depois de Aristoteles a poesia foi para os antigos a imita??o do bello da natureza, tendo por condi??es a unidade e a verdade, ou a

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