serm?es, e o orador que empregasse uma logica severa para provar a conveniencia da moral do christianismo, a quem d'isso est�� de antem?o convencido, obraria com tanta impropriedade, como se o missionario diante de homens de diversa cren?a buscasse t?o s��mente mover os affectos sem falar �� raz?o.
O exemplo de dois grandes homens parece oppor-se ao que temos acabado de dizer. S?o elles Bourdalone e Bossuet: o primeiro empregando a severidade do raciocinio, o segundo tacteando todas as cordas do sentimento, excitando todos os terrores, todas as esperan?as da imagina??o, e ambos considerados como grandes modelos. Mas de que s?o elles modelos? ��, justamente, d'essa eloquencia imperfeita, cujo vicio se cont��m na sua propria natureza. Com effeito, Bourdalone n?o preencheu, nos discursos em que se lan?ou no abysmo dos mysterios, o objecto da arte: esta dirige-se �� vontade, pela ac??o; e a defesa metaphysica bem que eloquente dos dogmas christ?os n?o requer ac??o alguma. Bossuet est�� no caso contrario: para que as suas ora??es tenham effeito �� necessaria a f��. O homem indifferente em materias de religi?o, e que n?o possuir gosto bastante para avaliar seu merecimento, dormir�� tranquillamente �� leitura de qualquer d'ellas, em quanto uma philippica ou olynthia de Demosthenes far�� sempre impress?o em todo o homem que tiver uma patria, uma fortuna a perder. Sabemos quanto nos p��dem oppor sobre estes dois oradores, e sobre a oratoria sagrada em geral; mas, n?o sendo possivel o entrar aqui numa quest?o bastante vasta que estas reflex?es n?o comportam, lembraremos s�� aos leitores que n��s consideramos os panegyricos e os serm?es de controversia como alheios do pulpito; que Bourdalone, de todos os oradores sacros o que mais sentiu a necessidade dos raciocinios como meio da eloquencia, nos seus panegyricos fugia constantemente para a moral, o que nos faz crer que elle a considerava o objecto da sua arte como acima dissemos. Em ultimo logar transcreveremos uma cita da tentativa sobre a eloquencia do pulpito pelo abbade Maury, obra a mais acreditada entre as d'esta natureza: J'avoue, diz elle, _qu'il est tr��s-rare de pouvoir suivre cette marche didactique dans nos chaires, o�� les discussions morales ne sont jamais probl��matiques, et o�� la conscience, qui ne ment jamais, ne saurait contester la v��rit�� �� ses remords_. O que entra justamente na ordem de nossas id��as, tanto sobre o objecto como sobre o defeito constitutivo da eloquencia sagrada.
Voltando ao nosso pa��s, na mesma eloquencia do pulpito, a unica em Portugal cultivada, s�� um orador deixou pela estampa monumentos dignos de exame, se attendermos �� fama popular que para seu auctor grangearam: j�� se v�� que falamos do P. Macedo. Como orador sagrado, Macedo deveu a popularidade de que gozou a um falso brilho no fundo das id��as, e sobre tudo a essa instruc??o perfunctoria que come?a a invadir a capital e que �� mais damnosa ��s letras do que a ignorancia. Sem vislumbres da sublimidade de Bossuet, sem a unc??o de Fenelon, sem a profundeza de Bourdalone, sem a nobre e evangelica simplicidade de Paiva d'Andrade, ganhou seu renome com os ouropeis de Seneca; mas tal renome, se ainda soar na posteridade, n?o ser�� para as suas cinzas um bafejo consolador de gloria.
Por��m n?o �� a eloquencia sagrada que deve hoje chamar a nossa atten??o: ella tem sido o luxo da religi?o, e n��s desejamos v��-la substituida por meios mais conducentes a fazer prosperar esta. A bella e sublime moral do evangelho n?o precisa dos soccorros da arte de Demosthenes e Cicero; e a religi?o practica d'um clero virtuoso, seria a homilia mais eloquente para insinuar a moral do Crucificado.
Antes de passar avante occorreremos a um reparo que far?o os leitores: o de n?o falarmos sobre a eloqu��ncia desenvolvida nas c?rtes da nossa primeira epocha de liberdade, que f��rma uma excep??o de quanto dissemos sobre a eloquencia portuguesa do XIX.^o seculo. Tivemos para isso raz?es, e talvez a principal seja o qu?o longe nos levaria o exame de alguns discursos alli pronunciados; entretanto diremos por honra da nossa patria que ent?o appareceram mui grandes homens, e que desejariamos ver publicar uma escolha das opini?es e relatorios ent?o ventilados, �� maneira do que se fez em Fran?a das ora??es dos representantes nacionaes desde o principio da revolu??o.
��, portanto, a educar homens que ventilem dignamente as questoes de interesse publico nas camaras legislativas, ou que defendam a innocencia e persigam o crime nos tribunaes j�� publicos, que o estudo e ensino d'esta parte da litteratura se deve dedicar: �� assim que n��s fariamos da essencia d'estes dois generos de oratoria o objecto da segunda parte de um curso litterario, tocando apenas de leve quanto �� formal na arte e que sapientissimos rhetoricoes, copiando-se uns aos outros, de sobejo explicaram; mas tractando com profundeza os principios applicaveis principalmente aos generos judiciario e deliberativo em rela??o ��

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