Noções elementares de archeologia | Page 4

Joaquim Possidónio Narciso da Silva
mysteriosos caracteres, que encerram, sob mil f��rmas emblematicas, sen?o os annaes, a vida intellectual do antigo povo egypcio.
D'entre um grande numero de sabios, que illustram a archeologia com os seus escriptos, Champolion descobre o alphabeto dos hieroglyphicos, e assim preenche uma lacuna de seculos, que a historia tinha deixado no esquecimento. Millin funda em 1792 o jornal Magasin Encyclopedique, por meio do qual derrama e popularisa os estudos archeologicos; publ��ca varias obras importantes sobre esta sciencia, e um Diccionario de Bellas Artes. Raoul-Rochette enriquece a litteratura franceza com o seu excellente Curso d'Archeologia, e entre outras publica??es n?o menos interessantes, que fazem conhecidos e devidamente apreciados alguns sabios inglezes, italianos e allem?es, Mr. A. du Caumont facilita e popularisa o estudo d'esta sciencia com seu precioso Abecedario ou rudimentos da archeologia.
Os livros d'estes homens, de espirito elevado, d?o um grande incitamento ��s investiga??es archeologicas; e as descobertas dos testemunhos authenticos da existencia do homem na remotissima ��poca quaternaria, trouxeram ao campo das discuss?es scientificas a origem da especie humana, e o seu viver nos tempos prehistoricos. Colleccionaram-se e patentearam-se ao publico os utensilios e instrumentos de que usaram os homens na sua idade primitiva, e que se iam descobrindo em excavac?es casuaes ou feitas expressamente com esse intuito. E n?o tardou a reconhecer-se a conveniencia de se reunirem em congresso os homens que nos differentes paizes se dedicavam a estes estudos, para que da exposi??o das suas investiga??es, e das discuss?es de uma assembl��a t?o competente e auctorisada, se projectasse luz nas trevas d'esse remoto passado.
Coube a mr. Desor, distincto naturalista, a honra de ser o primeiro a apresentar a id��a de um congresso internacional de archeologia prehistorica. Este pensamento enunciado em Paris, foi abra?ado com enthusiasmo; por��m antes que pod��sse ser realisado na terra, onde tivera origem, antecipou-se a Italia a encetar estas controversias.
No outono de 1865 a sociedade das sciencias naturaes, reunida em Spezzia, occupou-se dos tempos prehistoricos. No anno seguinte reunem-se os archeologos de differentes paizes em Neufchatel, na Suissa, celebram o primeiro congresso internacional de archeologia prehistorica; tratam largamente do assumpto; ajustam e lan?am as bases para a convoca??o do segundo congresso, que d�� principio ��s suas sess?es em Paris, no anno de 1867, ao mesmo tempo que se abre n'essa cidade a grande exposi??o universal, com uma sec??o intitulada Historia do trabalho humano, onde figuram productos variadissimos da industria humana de todos os paizes do globo, e de todas as ��pocas at�� ��s primitivas da humanidade.
Desde ent?o entrou a archeologia em um periodo de verdadeira actividade scientifica, protegida pelos governos das na??es mais cultas, reconhecida a sua importancia e justamente apreciada por todas as pessoas illustradas, qualquer que seja o rumo dos seus conhecimentos.
V
Portugal n?o tem tomado a parte activa, que lhe cumpria tomar, como paiz civilisado, e a quem tanto deve a moderna civilisa??o, n'aquelle movimento scientifico. Todavia, n?o se p��de dizer que lhe tenha ficado estranho.
Varias memorias, publicadas pela academia real das sciencias de Lisboa, provam que esta corpora??o se occupou, desde a sua institui??o, de assumptos archeologicos, relativos �� historia do paiz. Al��m disso n'estes ��ltimos annos tem havido entre n��s n?o poucos escriptores que se tem dedicado aos estudos archeologicos, e d'entre estes, alguns zelosos investigadores do que diz respeito aos tempos prehistoricos.
Temos sido muito descuidados na forma??o de museus archeologicos, e �� uma vergonha que n?o tenhamos um unico estabelecimento d'este genero, digno de ser exposto aos olhos dos estrangeiros illustrados que visitam o nosso paiz. E maior vergonha �� que n?o exista, podendo e devendo existir, independentemente do recurso ��s excavac?es muito dispendiosas. Era bastante para constituir um museu de objectos archeologicos e artisticos, muito rico e variado, os milhares de objectos, producto do trabalho humano, em diffrentes edades, de remotas eras, em oiro, prata, bronze, vidro, barro e pedra, descobertos nas provincias do reino, sobretudo na Estremadura, Alemtejo e Algarve, desde o seculo XV, em excavac?es casuaes, e muitos objectos preciosos e alfaias dos extinctos conventos.
Por iniciativa, e p��de dizer-se por unico esfor?o do sr. J. Possidonio Narciso da Silva, fundador e presidente da real associa??o dos architectos e archeologos portuguezes, deu come?o esta associa??o no edificio da egreja gothica e arruinada do extincto convento do Carmo, onde se acha estabelecida, a um museu archeologico. Carece, por��m, de muitas condi??es para preencher os fins a que s?o destinadas similhantes collec??es, sendo uma das principaes, a organisa??o scientifica e chronologica, e conveniente colloca??o dos objectos alli reunidos. Devo accrescentar, por��m, que achando-se alli todos os objectos accumulados e apertados por falta absoluta d'espa?o; aquella organisa??o e conveniente colloca??o est?o dependentes de uma obra importante e despendiosa; a cobertura das naves da egreja.
Guardam-se em differentes estabelecimentos publicos de Lisboa, Porto e Evora, diversidade de objectos archeologicos e artisticos, que se estivessem reunidos formariam uma collec??o mui curiosa, e de certa
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