Pátria | Page 9

Junqueiro Guerra
perdi o nome na escurid?o...
CIGANUS:
Sempre a mesma resposta inalter��vel...
O REI:
Diz?De donde vens? onde nasceste? em que pa��s??Nada temas... El-rei �� bom, podes falar...
O DOIDO, _sonambulo_:
N?o tenho alma... n?o tenho p��tria... n?o tenho lar...
O REI:
Traz um livro na m?o, reparai...
CIGANUS, _tomando o volume, que o?doido entrega, pesaroso_:
Deixa ver... Deixa-mo ver... um livro antigo... Sabes ler??Tu sabes ler?
OPIPARUS:
Anda, responde, n?o te encolhas...
CIGANUS, _abrindo o livro_:
Nem princ��pio, nem fim; trapos todas as f?lhas.
Folheando e lendo:
?_Esta �� a ditosa p��tria minha amada...
Alguns traidores houve algumas vezes...
Porque essas honras v?s, ��sse oiro puro
Verdadeiro valor n?o d?o...
........................................
A que novos desastres determinas
De levar ��stes reinos, esta gente?...
........................................
..............apagada e vil triteza_...?
O REI:
Parece verso...
CIGANUS, _restituindo o livro_:
Um alfarr��bio fedorento, Coisa de pr��gador, talvez... cheira a convento...
CIGANUS:
Quem sabe se algum v��lho ermit?o alienado,?D��sses que vivem s��s, longe do povoado,?Em ermos alcantis ou cavernas de fera...
OPIPARUS:
Onde dormes?
O DOIDO:
Dormir!... dormir!... Oh, quem me dera?Dormir!... Oh, quem me dera esta cabe?a vaga,?Esta cabe?a tonta, arrim��-la a uma fraga,?E quedar-me p'ra sempre esquecido no ch?o!...?E os mortos dormem... e eu morri... ent?o... ent?o?Porque n?o durmo?!...
Vagueando os olhos esgazeados pelos retratos da dinastia de Bragan?a, e como que recordando-se gradualmente, em sonho, dum escuro passado, abolido e long��nquo:
Olha os bandidos... os traidores!... Bem nos conhe?o!... f?ram ��les... subtilmente
Rosnam os c?es, enfurecidos.
Com drogas m��s e com venenos de serpente,?Sem eu saber, de noite e dia, a pouco a pouco,?Me levaram a alma e me tornaram louco...?Enlouqueceram-me, endoidaram-me os bandidos!...?A minha alma!... a minha alma!... Ou?o gemidos...?S?o talvez dela... tem-na aqui encarcerada...?Onde est��s, onde est��s, alma desamparada?!...?Grita por mim!... onde �� que est��s?!... Ai, quero emfim?Ver-te comigo... Onde �� que est��s?!...
Os c?es, truculentos, investem com ��le. Resignado e com despr��zo:
Ah, c?es danados... c?es d'el-rei... mordei, mordei?��ste corpo sem alma!... Ah f?sse outrora... outrora!...?E ai dos cachorros e do dono!... Assim... agora...?Mordei, mordei, ladrai, despeda?ai sem p'rigo?A minha carne e os meus andrajos de mendigo!...
CIGANUS:
Coitado! um noitib�� maluco e mansarr?o...
OPIPARUS:
Del��rio de tristeza e de persegui??o...
O REI:
Astrologus talvez o conhe?a...
CIGANUS:
O far?ante!?Pr��gador, impostor, m��gico, nigromante,?Meio raposa e meio c'ruja...
O REI:
�� tal e qual... perfeito...?Mas o dem��nio do mostrengo tem seu geito?Para enigmas... Quem sabe!... Ide-o chamar... talvez...
SCENA VII
Opiparus vai em procura do cronista. O doido, sonambulo, vagueia em t?rno do sal?o, contemplando os retratos. O rei ao lume, junto dos c?es, segue-o com os olhos.
CIGANUS, _meditando_:
Bem complicado ��ste cronista!... Quem o fez?Teve artes de engendrar singular criatura,?Contradit��ria, ondeante, incerta, amb��gua, obscura...?H�� duas almas no mostrengo: a que arquitecta?Quimeras v?s e sonhos v?os, a do poeta?Lun��tico, imbecil, m��stico, iluminado,?Essa deix��-la andar, que me n?o d�� cuidado!,?Mas a outra, a ambiciosa, a gulosa, a mesquinha,?A refalsada, (a verdadeira!) a igual �� minha,?Essa mais devagar, Saltamontes... cautela!...??lho nela... ?lho nela...?O rei �� tudo, o rei fraco... ��ste cronista?Discursa bem... convem n?o o perder de vista...?In��til. Afinal as duas almas ao cabo?Destroem-se uma �� outra, �� como Deus e o Diabo.?E emquanto que ambas a ferver, drogas contr��rias,?Em mil combina??es, imprevistas e v��rias,?Se desagregam, eu, tranq��ilo e resoluto,?Como tenho uma s��, imagino e executo.?Ah, o cronista amb��guo e magro e macilento?N?o pasmarei de o ver ainda num convento...?Bem capaz de morrer, jejuando, ermit?o...?A loucura subtil envolve-o...
Que trov?o! Que relampago!... Brada o vento... ulula o mar...?E ��ste doido esquisito e singular, a olhar...?A olhar... Que leve o demo a noite e a ventania...
O REI, _seguindo o doido com os olhos_:
Pois agora embirrou! n?o larga a dinastia...
O DOIDO, _absorto_:
Fantasmas de mortos?S?o enganos mortos...?N?o lhes tenham m��do... deixem-nos sonhar...
SCENA VIII
Entram Opiparus e Astrologus.
O REI, _ao cronista-m��r_:
Conheces porventura?��ste doido?
ASTROLOGUS:
Conhe?o.
O REI:
�� doido?
ASTROLOGUS:
Na figura,?Na voz, no olhar, em tudo o podeis ler, Senhor.
O REI:
E como endoideceu?
ASTROLOGUS:
De mis��ria e de d?r.
O REI:
H�� muito?
ASTROLOGUS:
Vai fazer tr��s s��culos...
CIGANUS:
A vista?Do espantalho endojou a mioleira ao cronista...
O REI:
Tr��s s��culos!... caramba! ent?o que idade tem??Mil anos?...
ASTROLOGUS:
Qu��si...
OPIPARUS:
Pronto! endoideceu tamb��m!
ASTROLOGUS:
A mil n?o chega ainda; oitocentos...
CIGANUS:
Coitado!?Endoideceu! doido varrido e confirmado!
O REI:
Gracejas?
ASTROLOGUS:
N?o perdi a raz?o, nem gracejo...?Acaso, meu Senhor, n?o vedes, como eu vejo,?Neste gigante, em seu aspecto e seu fad��rio,?O quer que seja de extra-humano e de lend��rio??Maior que n��s, simples mortais, ��ste gigante?Foi da gl��ria dum povo o semideus radiante.?Cavaleiro e pastor, lavrador e soldado,?Seu torr?o dilatou, in��spito montado,?Numa p��tria... E que p��tria! a mais formosa e linda?Que ondas do mar e luz do luar viram ainda!?Campos claros de milho mo?o e trigo loiro,?Hortas a rir, vergeis noivando em frutos d'oiro,?Trilos de rouxin��is, revoadas de andorinhas,?Nos vinhedos pombais, nos montes ermidinhas,?Gados n��dios, colinas brancas, olorosas,?Cheiro de sol, cheiro de mel, cheiro de rosas,?Selvas fundas, nevados p��ncaros, outeiros?D'olivais, por nogais frautas de pegureiros,?Rios, noras gemendo, azenhas nas levadas,?Eiras de sonho, grutas de g��nios e de fadas,?Riso, abundancia, amor, conc��rdia, juventude,?E entre a harmonia virgiliana um povo rude,?Um povo montanh��s e her��ico �� beira-mar,?Sob a gra?a de Deus, a cantar e a lavrar!?P��tria feita lavrando e batalhando: Aldeias?Conchegadinhas sempre ao torre?o de ameias.?Cada vila um castelo. As cidades defesas?Por muralhas, basti?es, barbac?s, fortalezas.?E a dar a f��, a dar vigor,
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