Noções elementares de archeologia | Page 2

Joaquim Possidónio Narciso da Silva
incentivo para os estudiosos, e um raio de luz nos escurissimos caminhos da nova sciencia.
Uma coincidencia feliz veio dar maior impulso e mais auctoridade aos estudos archeologicos.
Miguel Angelo Buounarotti e Raphael Sanzio d'Urbino assombravam Roma e a Europa culta com os explendores do seu talento na pintura, na esculptura e na architectura, quando Felix de Fredi descobriu n'aquella cidade, em 1506, entre as ruinas das Thermas de Tito, o famoso grupo de Laocoonte e seus dois filhos envolvidos pelas serpentes. Enlevados n'este grande primor da esculptura antiga, aquelles dois eximios artistas procuraram com desvelada applicac?o descobrir o nome do auctor d'esta maravilha da arte, e a era em que foi executada. Caminhando de investiga??o em investiga??o visitaram e estudaram attentamente as grandes ruinas da architectura grega e romana, os restos preciosos da sua admiravel esculptura e as inscrip??es lapidares.
Estes estudos foram t?o applaudidos, e t?o reconhecidas as suas vantagens, que n?o tardou a fundar-se em Floren?a, sob o governo dos M��dicis, a primeira escola publica d'antiguidades.
Tal foi o come?o da archeologia.
II
O exemplo de Miguel Angelo e de Raphael, teve imitadores pouco depois em Fran?a, Allemanha, e outras na??es, onde alguns homens estudiosos, n?o cultores das artes, mas apreciadores das suas obras, se occuparam de investiga??es archeologicas, posto que em geral restrictas �� numismatica e �� epigraphia.
Este segundo periodo da nova sciencia, que �� denominado dos antiquarios, abrange os fins do seculo XVI, todo o XVII e a primeira metade do XVIII.
Portugal n?o foi indifferente a este progresso. Poderia dizer que n'este passo, como em muitos outros, se antecipou ��s mais na??es, pois que no principio da segunda metade do s��culo XV, D. Affonso, marquez de Valen?a, filho primogenito de D. Affonso I, duque de Bragan?a, indo acompanhar a Italia e Allemanha a imperatriz D. Leonor, filha d'el-rei D. Duarte, e esposa do imperador d'Allemanha Frederico III, comprou e reuniu durante a sua longa viagem muitos objectos d'antiguidade e de historia natural, com os quaes, na sua volta �� patria, organisou um museu, que seu pae augmentou com varios cippos, lapidas e fragmentos d'archeologia romana, descobertos no Alemtejo. Foi este o primeiro museu, que se creou n'este reino, e creio que precedeu a todos os que se crearam na Europa.
Todavia, apezar d'este estimulo, o estudo d'antiguidades s�� teve principio entre n��s passado um seculo; e foi de f��ra que ent?o nos veio o incentivo.
Gra?as ��s intimas rela??es do nosso paiz com as principaes potencias maritimas da Europa, desde a entrada do seculo XVI, estabelecidas pelos descobrimentos e conquistas dos portuguezes, que fizeram de Lisboa o emporio das mercadorias do Oriente, o movimento scientifico, que lavrava n'aquellas na??es, n?o se demorava muito em se fazer sentir entre n��s. Por��m no caso de que trato abreviou esse periodo, sem duvida, a viagem de um nosso compatriota, que alcan?ou nas letras nome illustre. Andr�� de Rezende, depois de ter cursado a universidade de Salamanca, e de ter tomado capello em theologia, levado do desejo de se instruir, percorreu a Fran?a e os Paizes Baixos, demorando-se em Paris e em Bruxellas. O trato que teve n'estas cidades com alguns sabios, suscitou-lhe o amor dos estudos archeologicos. Regressando �� patria entregou-se com ardor e perseveran?a a esses estudos, colligindo alguns cippos e outras lapidas com inscrip??es romanas, que collocou no jardim da casa em que habitava na cidade d'Evora, investigando e decifrando um grande numero de monumentos epigraphicos do nosso paiz, e compondo por fim varias obras, em que dava conta d'essas locubra??es predilectas. Duas viram a luz da imprensa, com o titulo de: Historia das antiguidades d'Evora, publicada em 1553; e Libri quatuor de antiquitatibus Lusit��ni?, impressa em 1593, vinte annos depois da sua morte. D'entre as que deixou manuscriptas sobre o mesmo genero d'assumptos, citarei: Monumenta, romanorum in Lusitanis urbibus.
Assim come?aram estes estudos em Portugal; e do mesmo modo continuaram n'esse seculo e no seguinte, restrictos todavia �� ��poca do dominio romano.
As na??es que percorriam as vias do progresso com passo firme e resoluto mostraram-se empenhadas no desenvolvimento dos estudos archeologicos, desde o meiado do seculo XVII, fundando academias ou escolas, onde se ensinava ou discursava sobre antiguidades.
Ent?o os adeptos da nova sciencia, sequiosos de emo??es e buscando alargar a ��rea dos seus estudos, visitam a Grecia, exploram o solo, desenterram soberbos monumentos, escrevem e publicam em muitos livros os resultados das suas investiga??es.
Illustraram-se n'esta cruzada scientifica, principalmente, Jacob Span, e Bernardo de Montfaucon, francezes, e Wheler, Jo?o Augusto Ernesti, Jo?o Jorge Groevinus, Gronovius, allem?es. Todavia nos seus vastos repositorios de memorias e disserta??es, posto que tratem mais particularmente das antiguidades gregas e romanas, j�� se occupam de todas as partes da archeologia.
III
Este impulso fez-se sentir em o nosso paiz nos fins do primeiro quartel do seculo XVIII. Fundando-se em Lisboa no anno de 1720, a academia real de Historia Portugueza, foi-lhe commettido, juntamente
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