A Relíquia | Page 9

Eça de Queirós
no crepusculo humido, tendo ro?ado bruscamente por outro guarda-chuva, ouvi de repente o meu nome de Coimbra, lan?ado com alegria.
--Oh, Rapos?o!
Era o Silverio, por alcunha o Rinch?o, meu condiscipulo, e companheiro de casa das Pimentas. Estivera passando esse mez no Alemtejo, com seu tio, rica?o illustre, o bar?o d'Alconchel. E agora, de volta, ia v��r uma Ernestina, rapariguita loura, que morava no Salitre, n'uma casa c?r de rosa, com roseirinhas �� varanda.
--Queres tu vir c�� um bocado, �� Rapos?o? Est�� l�� outra rapariga bonita, a Adelia... Tu n?o conheces a Adelia? Ent?o que diabo, vem v��r a Adelia... �� um mulher?o!
Era, um domingo, noite de partida da titi; eu devia recolher religiosamente ��s oito horas. Cocei a barba, indeciso. O Rinch?o fallou da brancura dos bra?os da Adelia: e eu comecei a caminhar ao lado do Rinch?o, enfiando as luvas pretas.
Munidos d'um cartucho de pasteis e de uma garrafa de Madeira, encontr��mos a Ernestina a coser um elastico nas suas botinas de duraque. E a Adelia, estendida no sof��, de chambre e em saia branca, com os chinelos cahidos no tapete, fumava um cigarro languido. Eu sentei-me ao lado d'ella, commovido e mono, com o meu guarda-chuva entre os joelhos. S�� quando o Silverio e Ernestina correram dentro �� cozinha, abra?ados, a buscar copos para o Madeira, ousei perguntar �� Adelia, c��rando:
--Ent?o a menina d'onde ��?
Era de Lamego. E eu, novamente acanhado, s�� pude gaguejar que era tristonho aquelle tempo de chuva. Ella pediu-me outro cigarro, cortezmente, dizendo-me--o cavalheiro. Apreciei estes modos. As mangas largas do seu roup?o, escorregando descobriam bra?os t?o brancos e macios que entre elles a Morte mesma deveria ser deleitosa.
Fui eu que lhe offereci o prato onde a Ernestina colloc��ra os pasteis. Ella quiz saber o meu nome. Tinha um sobrinho que tambem se chamava Theodorico; e isto foi como um fio subtil e forte que veio, do seu cora??o, enrodilhar-se no meu.
--Porque �� que o cavalheiro n?o p?e o guarda-chuva alli a um canto? disse-me ella, rindo.
O brilho picante dos seus dentinhos miudos fez desabrochar dentro em mim uma fl?r de madrigal.
--�� para n?o me tirar d'aqui d'ao p�� da menina nem um instantinho que seja.
Ella fez-me uma cocega lenta no pesco?o. Eu, aboborado de g?zo, bebi o resto do Madeira que ella deix��ra no calice.
A Ernestina, poetica, e cantando o fado, aninhou-se nos joelhos do Rinch?o. Ent?o a Adelia, revirando-se languidamente, puxou-me a face--e os meus labios encontraram os seus no beijo mais s��rio, mais sentido, mais profundo que at�� ahi abal��ra o meu s��r.
N'esse d?ce instante, um relogio medonho, com o mostrador fingindo uma face de lua, e que parecia espreitar-me de sobre o marmore d'uma mesa do mogno, d'entre dois vasos sem fl?res, come?ou a dar dez, horas, fanhoso, ironico, pachorrento.
Jesus! era a hora do ch�� em casa da titi! Com que terror eu trepei, esbaforido, sem mesmo abrir o guarda-chuva, as viellas escuras e infindaveis que levam ao Campo de Sant'Anna! Em casa, nem tirei as botas enlameadas. Enfiei pela sala; e vi logo, l�� ao fundo, no sof�� de damasco, os oculos da titi, mais negros, assanhados, esperando por mim e fuzilando. Ainda balbuciei:
--Titi...
Mas j�� ella gritava, esverdinhada de c��lera, sacudindo os punhos.
--Relaxa??es em minha casa n?o admitto! Quem quizer viver aqui ha de estar ��s horas que eu marco! L�� deboches e porcarias, n?o, emquanto eu f?r viva! E quem n?o lhe agradar, rua!
Sob a rajada estridente da indigna??o da snr.^a D. Patrocinio, padre Pinheiro e o tabelli?o Justino tinham dobrado a cabe?a emba?ados. O dr. Margaride, para apreciar conscienciosamente a minha culpa, puxou o seu pesado relogio d'ouro. E foi o bom Casimiro que interveio, como sacerdote, como procurador, influente e suave.
--D. Patrocinio tem raz?o, tem muita raz?o em querer ordem em casa... Mas talvez o nosso Theodorico se tivesse demorado um pouco mais no Martinho, a ouvir fallar d'estudos, de compendios...
Exclamei amargamente:
--Nem isso, padre Casimiro! Nem no Martinho estive! Sabe onde estive? No convento da Encarna??o! �� verdade, encontrei um condiscipulo meu, que ia l�� buscar a irm?. Hoje era festa, a irm? tinha ido passar o dia com uma tia, uma commendadeira... Estivemos �� espera, a passear no pateo... A irm? vai casar, elle andou a contar-me do noivo, e do enxoval, e do apaixonada que ella est��... Eu morto por me safar, mas com ceremonia do rapaz, que �� sobrinho do bar?o d'Alconchel... E elle z��s, z��s, a fallar da irm?, e do namoro, e das cartas...
A tia Patrocinio uivou de furor.
--Olha que conversa! Que porcaria de conversa! Que indecente conversa para o pateo d'uma casa de religi?o! Cala-te, alma perdida, que at�� devias ter vergonha!... E fique entendendo! Para outra vez que venha a estas horas, n?o me entra em casa! Fica na rua, como um c?o...
Ent?o o dr. Margaride estendeu a m?o pacificadora
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