A Relíquia | Page 5

Eça de Queirós
meu nome, que eu pronunciava Tedrico. O outro, amoravel, mostrando os dentes frescos, aconselhou-me que separasse as syllabas e dissesse The-o-do-ri-co. Depois acharam-me parecido com a mam?, nos olhos. A titi suspirou, deu louvores a Nosso Senhor de que eu n?o tinha nada do Raposo. E o sujeito de grandes collarinhos fechou o livro, fechou a luneta, e timidamente quiz saber se eu trazia saudades de Vianna. Eu murmurei, atordoado:
--Sim, titi.
Ent?o o padre mais idoso e nedio chegou-me para os joelhos, recommendou-me que fosse temente a Deus, quietinho em casa, sempre obediente �� titi...
--O Theodorico n?o tem ninguem sen?o a titi... �� necessario dizer sempre que sim �� titi...
Eu repeti, encolhido:
--Sim, titi.
A titi, severamente, mandou-me tirar o dedo da bocca. Depois disse-me que voltasse para a cozinha, para a Vicencia, sempre a seguir pelo corredor...
--E quando passar pelo oratorio, onde est�� a luz e a cortina verde, ajoelhe, fa?a o seu signalzinho da cruz...
N?o fiz o signal da cruz. Mas entreabri a cortina; e o oratorio da titi deslumbrou-me, prodigiosamente. Era todo revestido de s��da r?xa, com paineis enternecedores em caixilhos floridos, contando os trabalhos do Senhor; as rendas da toalha do altar ro?avam o ch?o tapetado; os santos de marfim e de madeira, com aureolas lustrosas, viviam n'um bosque de violetas e de camelias vermelhas. A luz das velas de cera fazia brilhar duas salvas nobres de prata, encostadas �� parede, em repouso, como broqueis de santidade; e erguido na sua cruz de pau preto, sob um docel, Nosso Senhor Jesus Christo era todo d'ouro, e reluzia.
Cheguei-me devagar at�� junto da almofada de velludo verde, pousada diante do altar, cavada pelos piedosos joelhos da titi. Ergui para Jesus crucificado os meus lindos olhos negros. E fiquei pensando que no c��o os anjos, os santos, Nossa Senhora e o Pai de todos, deviam ser assim, de ouro, cravejados talvez de pedras: o seu brilho formava a luz do dia; e as estrellas eram os pontos mais vivos do metal precioso, transparecendo atrav��s dos v��os negros, em que os embrulhava �� noite, para dormirem, o carinho beato dos homens.
Depois do ch��, a Vicencia foi-me deitar n'uma alcovinha pegada ao seu quarto. Fez-me ajoelhar em camisa, juntou-me as m?os, ergueu-me a face para o c��o. E dictou os Padre-Nossos que me cumpria rezar pela saude da titi, pelo repouso da mam?, e por alma d'um commendador que f?ra muito bom, muito santo, e muito rico, e que se chamava Godinho.
* * * * *
Apenas completei nove annos, a titi mandou-me fazer camisas, um fato de pano preto, e collocou-me, como interno, no collegio dos Isidoros, ent?o em Santa Isabel.
Logo nas primeiras semanas liguei-me ternamente com um rapaz Chrispim, mais crescido que eu, filho da firma Telles, Chrispim & C.^a, donos da fabrica do fia??o �� Pampulha. O Chrispim ajudava �� missa aos domingos; e, de joelhos, com os seus cabellos compridos e louros, lembrava a suavidade d'um anjo. ��s vezes agarrava-me no corredor e marcava-me a face, que eu tinha feminina e macia, com beijos devoradores; �� noite, na sala, d'estudo, �� mesa onde folheavamos os somnolentos diccionarios, passava-me bilhetinhos a lapis, chamando-me seu idolatrado o promettendo-me caixinhas de pennas d'a?o...
�� quinta-feira era o desagradavel dia de lavarmos os p��s. E tres vezes por semana o sebento padre Soares, vinha, de palito na bocca, interrogar-nos em doutrina e contar-nos a vida do Senhor.
--Ora depois pegaram, e levaram-no de rastos a casa de Caiph��s... Ol��, o da pontinha do banco, quem era Caiph��s?... Emende! Emende adiante!... Tambem n?o! Irra, cabe?udos! Era um judeu o dos peores... Ora diz que, l�� n'um sitio muito feio da Jud��a, ha uma arvore toda d'espinhos, que �� mesmo d'arripiar...
A sineta do recreio tocava; todos, a um tempo e d'estalo, fechavamos a cartilha.
O tristonho pateo de recreio, areado com saibro, cheirava mal por causa da visinhan?a das latrinas; e o regalo para os mais crescidos era tirar uma fuma?a do cigarro, ��s escondidas, n'uma sala terrea onde aos domingos o mestre de dansa, o velho Cavinetti, frisado e de sapatinhos decotados, nos ensinava mazurkas.
Cada mez a Vicencia, de capote e len?o, me vinha buscar depois da missa, para ir passar um domingo com a titi. Isidoro Junior, antes de eu sair, examinava-me sempre os ouvidos e as unhas; muitas vezes, mesmo na bacia d'elle, dava-me uma ensaboadella furiosa, chamando-me baixo sebento. Depois trazia-me at�� �� porta, fazia-me uma caricia, tratava-me de seu querido amiguinho, e mandava pela Vicencia os seus respeitos �� snr.^a D. Patrocinio das Neves.
N��s moravamos no Campo de Sant'Anna. Ao descer o Chiado, eu parava n'uma loja de estampas, diante do languido quadro d'uma mulher loura, com os peitos n��s, recostada n'uma pelle de tigre, e sustentando na ponta dos dedos, mais finos que os do Chrispim, um pesado fio de perolas. A claridade d'aquella
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