A Relíquia

Eça de Queirós

A Rel��quia

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Title: A Rel��quia
Author: E?a de Queir��s
Release Date: January 14, 2006 [EBook #17515]
Language: Portuguese
Character set encoding: ISO-8859-1
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A RELIQUIA

*A Reliquia*
Decidi comp?r, nos vagares d'este ver?o, na minha quinta do Mosteiro (antigo solar dos condes de Landoso) as memorias da minha Vida--que n'este seculo, t?o consumido pelas incertezas da Intelligencia e t?o angustiado pelos tormentos do Dinheiro, encerra, penso eu e pensa meu cunhado Chrispim, uma li??o lucida e forte.
Em 1875, nas vesperas de Santo Antonio, uma desillus?o de incomparavel amargura abalou o meu s��r: por esse tempo minha tia D. Patrocinio das Neves mandou-me do Campo de Sant'Anna, onde moravamos, em romagem a Jerusalem: dentro d'essas santas muralhas, n'um dia abrazado do mez de Nizam, sendo Poncius Pilatus procurador da Jud��a, Elius Lamma legado imperial da Syria e J. Kaiapha Summo Pontifice testemunhei, miraculosamente, escandalosos successos: depois voltei--e uma grande mudan?a se fez nos meus bens e na minha moral.
S?o estes casos--espa?ados e altos n'uma existencia de bacharel como, em campo de herva ceifada, fortes e ramalhosos sobreiros cheios de sol e murmurio--que quero tra?ar, com sobriedade e com sinceridade, emquanto no meu telhado voam as andorinhas, e as moitas de cravos vermelhos perfumam o meu pomar.
Esta jornada �� terra do Egypto e �� Palestina permanecer�� sempre como a gloria superior da minha carreira; e bem desejaria que d'ella ficasse nas Lettras, para a Posteridade, um monumento airoso e macisso. Mas hoje, escrevendo por motivos peculiarmente espirituaes, pretendi que as paginas intimas em que a relembro se n?o assemelhassem a um _Guia Pittoresco do Oriente_. Por isso (apesar das solicita??es da vaidade) supprimi n'este manuscripto succulentas, resplandecentes narrativas de Ruinas e de Costumes...
De resto esse paiz do Evangelho, que tanto fascina a humanidade sensivel, �� bem menos interessante que o meu s��cco e paterno Alemtejo: nem me parece que as terras favorecidas por uma presen?a Messianica ganhem j��mais em gra?a ou esplendor. Nunca me foi dado percorrer os Lugares Santos da India em que o Budha viveu--arvoredos de Migadaia, outeiros de Veluvana, ou esse d?ce valle de Rajagria por onde se alongavam os olhos adoraveis do Mestre perfeito quando um fogo rebentou nos juncaes, e Elle ensinou, em singela parabola, como a Ignorancia �� uma fogueira que devora o homem--alimentada pelas enganosas sensa??es de Vida que os sentidos recebem das enganosas apparencias do Mundo. Tambem n?o visitei a caverna d'Hira, nem os devotos areaes entre Meca e Medina que tantas vezes trilhou Mahomet, o Propheta Excellente, lento e pensativo sobre o seu dromedario. Mas, desde as figueiras de Bethania at�� ��s aguas caladas de Galil��a, conhe?o bem os sitios onde habitou esse outro Intermediario divino, cheio de enternecimento e de sonhos, a quem chamamos Jesus-Nosso-Senhor:--e s�� n'elles achei bruteza, seccura, sordidez, soledade e entulho.
Jerusalem �� uma villa turca, com viellas andrajosas, aca?apada entre muralhas c?r de l?do, e fedendo ao sol sob o badalar de sinos tristes.
O Jord?o, fio d'agua barrento e p��co que se arrasta entre areaes, nem p��de ser comparado a esse claro e suave Lima que l�� baixo, ao fundo do Mosteiro, banha as raizes dos meus amieiros: e todavia v��de! estas meigas aguas portuguezas n?o correram j��mais entre os joelhos d'um Messias, nem j��mais as ro?aram as azas dos anjos, armados e rutilantes, trazendo do c��o �� terra as amea?as do Altissimo!
Entretanto como ha espiritos insaciaveis que, lendo d'uma jornada pelas terras da Escriptura, anhelam conhecer desde o tamanho das pedras at�� ao pre?o da cerveja--eu recommendo a obra copiosa e luminosa do meu companheiro de romagem, o allem?o Topsius, doutor pela Universidade de Bonn e membro do Instituto Imperial de Excava??es Historicas. S?o sete volumes in-quarto, atochados, impressos em Leipzig, com este titulo fino e profundo--Jerusalem Passeada e Commentada.
Em cada pagina d'esse solido Itinerario o douto Topsius falla de mim, com admira??o e com saudade. Denomina-me sempre o _illustre fidalgo lusitano_; e a fidalguia do seu camarada, que elle faz remontar aos Barcas, enche manifestamente o erudito plebeu de delicioso orgulho. Al��m d'isso o esclarecido Topsius aproveita-me, atrav��s d'esses repletos volumes, para pendurar ficticiamente, nos meus labios e no meu craneo, dizeres e juizos ensopados de beata e babosa credulidade--que elle logo rebate e derroca com sagacidade e facundia! Diz, por exemplo:--?Diante de tal ruina, do tempo da Cruzada de Godofredo, o illustre fidalgo
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